A Galeria de Arte Contemporânea da Fundação Cultural de Criciúma convida para a abertura da Exposição, selecionada pelo Edital 2001 de Exposições Temporárias da Galeria de Arte Contemporânea da FCC
“Interferências entre transposições”
Ricardo Mello (Pelotas/RS)
Abertura: 12/09, às 20h
“Interferências entre transposições”
Meu intuito principal aqui é efetuar de forma crítica e sistemática determinadas transposições imagéticas entre o vídeo, a foto e, seu destino final, a pintura. Transposições essas que trazem implicações semânticas evidenciadas pelo crescente distanciamento perceptivo em relação ao referente que é representado: a pessoa e a cena que figuram na imagem inicial do processo. Busco ainda explorar noções de percepção da realidade nos entremeios dessa série de mídias.
Para isto, constitui inicialmente uma extensa série de imagens apropriadas de cenas cinematográficas, fotografadas unicamente diante de uma tela de televisão. Essa série acabou por dar origem a uma instalação intitulada “arquivamento”.
As fotografias recortam um pedaço no campo total da cena original. Viso assim também alcançar uma dissociação entre memória e imagem através da utilização de filmes que tem como característica principal um certo anonimato, cujas imagens tem chances remotas de serem identificadas.
O objetivo principal dessa longa série de captações fotográficas é o de instituir um arquivo para posteriores transposições pictóricas executadas através de um minucioso trabalho manual, utilizando-se uma técnica advinda do movimento do Hiper-Realismo. Como no caso dos pintores hiper-realistas, meu processo pictórico amplia exageradamente o recorte fotográfico da imagem original, copiando-o meticulosamente sobre a superfície branca do suporte pictórico, pixel a pixel, e salientando desse modo na pintura as interferências dos meios videográfico e fotográfico sobre a referência imagética inicial.
Ao empregar essa prática específica de trabalho (no ínterim de um processo laborioso que leva, literalmente, centenas de horas), procuro retomar aqui alguns preceitos essenciais do movimento hiper-realista: a elaboração exagerada dos parâmetros e códigos de representação de outro(s) meio(s) na pintura, o interesse focado no processo e o meio pictórico como uma nova variação do objeto apropriado. Trata-se de um processo demorado que para ser concluído levou 424 horas na pintura “imersão noturna #053 (424 horas)”, e 246 horas na pintura “imersão noturna #061 (246 horas)”. O fato de eu anotar e contar o tempo de trabalho não deixa de ser também um aspecto revelador da importância do processo nesse trabalho.
Os títulos de cada uma das duas pinturas que apresento (“imersão noturna”) sugerem o fato de a imagem cinematográfica ter sido utilizada como tema para uma imersão visual. A imersão nesse caso trata-se justamente do momento de captação fotográfica da imagem frente a uma tela da televisão.
De modo que de um meio para outro a noção de realidade volatiliza-se, pois a imagem não é mais aquela criada pelo registro fotográfico da emanação do referente, mas pela mão do pintor que copia de modo extremamente fiel a codificação visual fotográfica. Instaura-se dessa maneira, como escreve Gerhard Richter em relação às suas pinturas de fotos, “uma espacialidade especial, que resulta da penetração e da tensão entre o apresentado e o espaço do quadro”.
Ricardo Mello
Ricardo Mello (Santiago-RS, 1980) é doutorando em Artes Visuais (ênfase em Poéticas Visuais) pelo Instituto de Artes da UFRGS, orientado pela Prof.ª Drª. Icléia Cattani. É Professor Assistente do Instituto de Artes e Design da UFPel. Em 2002, obteve menção especial no 59º Salão Paranaense. Em 2006, em Porto Alegre, apresentou individual na Galeria de Arte do DMAE. Em 2008, também na capital gaúcha, participou da coletiva Apropriações Contemporâneas na Fundação Ecarta e apresentou no Instituto Goethe a individual Pinturas. No mesmo ano foi selecionado pelo Programa Rumos Artes Visuais 2008/2009 do Instituto Itaú Cultural, tendo exposto através deste em 2009 nas cidades de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Visitação até 28 de Outubro de 2011.
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